Do abate à docência – relatos de um veterinário

“I’ve had an epiphany!” (Eu tive uma epifania). Essa expressão traduziria muito bem meu atual estado de espírito. Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém “encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa”. O que quero dizer com isso? Essa sensação surgiu dias atrás quando eu refletia sobre o propósito da minha vida, em especial a vida profissional. Acompanhe – me ao longo deste texto e você compreenderá a mensagem final.

“Sou médico veterinário, especializei em ciência avícola, estagiei em vários setores da inspeção de produtos de origem animal, trabalhei por quatro anos em abatedouro – frigorífico de frango e não imaginava o que a vida me reservava. Agradeço todas oportunidades que tive em cada fase acadêmica/profissional e também às pessoas que somaram em meu aprendizado. Eu sempre soube que a área que mais me trazia satisfação, era a ciência e tecnologia de alimentos (carnes). Comecei então a buscar meu espaço dia após dia”.

Foi trabalhando num abatedouro frigorífico que acabei despertando ou redescobrindo um certo dom (adormecido). Em 2012, atuava essencialmente dentro da fábrica e numa certa ocasião, devido reajuste de funcionários, fui convidado a ministrar treinamentos para a equipe do SIF. Passaria tecnicamente de uma importante função de supervisão para funções administrativas. No princípio refutei a ideia, achando tudo isso uma despromoção. Seria normal alguém na minha posição encarar isso como um bom motivo para pedir demissão e buscar uma nova oportunidade, porém não foi isso que aconteceu. Resolvi encarar o desafio, prometendo para mim mesmo que daria o meu melhor. Read more

Quais são as MATÉRIAS mais difíceis da veterinária? #VetVlog #08

Anatomia? Bioquímica? Estatística? Clínicas? 

É claro que existe uma grande diferença de uma faculdade para outra e de um professor para outro, mas ainda assim, existem algumas matérias que tornam-se difíceis por si só, devido à grande quantidade de conteúdo ou à sua densidade.

Por isso, resolvi fazer um vídeo comentando quais foram as matérias que eu achei mais difíceis durante a faculdade. E para você, quais são as matérias que você penou durante o curso?

Sou veterinário! Posso trabalhar com alimentos?

Você está se formando e eis que surge o seguinte diálogo…

Fulano: “Agora você poderá cuidar da Nina (sua gatinha), não é?”

Você: “Eu pretendo seguir minha carreira com alimentos (leia-se produtos de origem animal – POA).

Fulano: “Mas você não é veterinário?” (bugou)

Se você está se formando e já presenciou o diálogo exposto, não pense que você está sozinho. Bem vindo ao time! Grande parte da população brasileira desconhece essa área de atuação do médico veterinário, afinal o senso comum associa o veterinário à clínica de grandes e/ou pequenos animais (ou silvestres em alguns casos) e produção de animais de corte e leite.

Acontece que o curso de medicina veterinária oferece subsídios ao acadêmico para que este ingresse no mercado de trabalho dos alimentos. Todavia duas perguntas são essenciais para darmos um desfecho:

1) Quais disciplinas são fundamentais para embasar o aluno?

2) Qual a melhor área de atuação do veterinário com alimentos?

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Quando você lembra que nasceu para ser veterinário

As vezes a gente fica desmotivado com todas as dificuldades da profissão. Principalmente depois de formado, quando você tem que estudar, trabalhar, se manter e ser um bom profissional, com baixa remuneração e reconhecimento. Porém, mesmo com todos esses desafios, existem alguns momentos que mexem com a gente. Alguns momentos na qual sentimos que realmente nascemos para sermos médicos veterinários.

Um deles aconteceu comigo quando ainda estava na residência. Embora eu tenha feito na área de reprodução, lá na UEL os R1 rodam por todas as áreas de animais de companhia e naquela semana eu estava atendendo no pronto socorro. Fomos chamados para atender um filhote de uns 6 meses que havia sido atropelado, e estava com fratura completa de rádio e ulna direitos.

O senhor que o havia levado, e que também o havia atropelado, não era seu dono e o cãozinho havia entrado na frente do seu carro, assustado. Embora não tivesse condições de pagar a cirurgia, estava completamente comovido, convicto de que adotaria o Bob, nome que escolheu para o filhote.

Como seu novo tutor era desafiado financeiramente e o Bob estava com a fratura alinhada, a professora plantonista optou por fazer uma imobilização externa chamada Robert Jones modificada, onde acolchoamos o braço e colocamos uma tala, na tentativa de que a fratura se recuperasse sem intervenção cirúrgica. Em filhotes a cicatrização óssea é rápida e, por isso, estávamos confiantes.

Como ele havia sido atropelado, embora não houvesse sinais de contusão pulmonar ou algo mais sério, lembro que ele acabou ficando internado algum tempo, mas não tive mais contato após isso. Mas uma coisa eu nunca vou esquecer – as palavras da minha professora ao tutor:

“Eu sei que é difícil adotar um animal assim de uma hora para outra, mas de uma coisa você pode ter certeza: ele será grato a você para sempre!”.

Passadas algumas semanas eu estava rodando pelo setor onde eram realizadas as trocas de curativo e talas. Na UEL a casuística de animais que necessitam de curativos diários é enorme, por isso um ou dois residentes ficavam responsáveis apenas por isso. Eis que em um dos retornos chega o Bob, abandando o rabo e pulando como se nada tivesse acontecido, como se aquela tala enorme nem estivesse ali no braço dele. Ah! Esqueci de contar, o Bob era mestiço de labrador, mó bonitão, então vocês podem imaginar a festa que era pra ele! hahaha

Chamei a professora que havia ajudado a gente a atender, repetimos o raio X, e os ossos já estavam praticamente consolidados. Mantivemos a tala mais um tempo apenas por precaução. Mas uma coisa eu não tenho nem como explicar: a alegria do Bob com seu dono e do seu dono como o Bob. O orgulho dele ao falar do Bob era imenso e a gente via o mesmo nos olhos do Bob. Uma alegria singela e simples, apenas por estar ali, com pessoas que queriam o seu bem.

É nessas horas que a gente vê o quão nossa profissão é privilegiada ao nos entregar esses momentos simples, mas fantásticos e cheios de felicidade, que podem parecer bobos, mas que realmente fazem a diferença. São momentos como esse que nos lembram a razão de nos dedicarmos todos os dias, mesmo nas situações mais adversas. São momentos como esse que nos lembram por que decidimos ser médicos veterinários.